sexta-feira, setembro 19, 2014

Justificados, Mas Não Perdoados?

Justificados, Mas Não Perdoados?
John Piper






A diferença entre a ira judicial e o desprazer paternal
Como podemos ser justificados pela fé e, apesar disso, precisarmos continuar confessando nossos pecados, todos os dias, para que sejamos perdoados? Por um lado, o Novo Testamento nos ensina que, quando cremos em Cristo, a nossa fé é atribuída como justiça (Romanos 4.3,5-6); a justiça de Deus é imputada a nós (Filipenses 3.9). Em Cristo, permanecemos diante de Deus como pessoas justas, e aceitas, sim, e “perdoadas”, conforme Paulo afirmou: “É assim também que Davi declara [em Salmos 32.1] ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras: Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos” (Romanos 4.6-7). Portanto, na mente de Paulo, a justificação envolve a realidade do perdão.
Contudo, por outro lado, o Novo Testamento também ensina que o nosso perdão contínuo depende da confissão de nossos pecados. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1.9). Confessar os pecados é uma parte do andar na luz, que temos de praticar, a fim de que o sangue de Cristo continue a purificar-nos de nossos pecados — “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz… e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1.7). E Jesus nos ensinou a orar diariamente: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mateus 6.12).
Então, como devemos nos ver em relação a Deus? Todos os nossos pecados já estão perdoados ou são perdoados dia após dia, à medida que os confessamos? A justificação significa que todos os pecados — passados, presentes e futuros — estão perdoados no caso das pessoas justificadas? Há outra maneira de vermos os nossos pecados em relação a Deus? Ouçamos, primeiramente, o pastor e teólogo Thomas Watson, que viveu há 350 anos.
Quando percebi que Deus perdoa todos os meus pecados, entendi que isso se referia a pecados passados, uma vez que os pecados por vir são perdoados somente quando nos arrependemos deles. Na verdade, Deus já decretou o perdão desses pecados. E, quando Ele perdoa um pecado, perdoará, no devido tempo, todos os outros. Mas os pecados futuros não são realmente perdoados até que nos arrependamos deles. É absurdo pensar que o pecado é perdoado antes de ser cometido…
A opinião de que os pecados futuros, bem como os pecados passados, são perdoados remove e anula a intercessão de Cristo. Ele é um advogado que intercede em favor de pecados cotidianos (1 João 2.1). Mas, se o pecado é perdoado antes de ser cometido, existe alguma necessidade da intercessão diária de Cristo? Que necessidade tenho eu de um advogado, se o pecado é perdoado antes de ser cometido? Portanto, embora Deus perdoe, no caso do crente, os pecados passados, os pecados vindouros não são perdoados, enquanto não há arrependimento renovado (Body of Divinity,Grand Rapids: Baker Book House, 1979, p. 558).
Watson está correto? Depende. Sim, creio que podemos aceitar esse ponto de vista sobre o perdão, se tivermos em mente, com firmeza, o fato de que o preço, o fundamento e a garantia de todo o perdão (de pecados passados, presentes e futuros) foi a morte de Cristo, de uma vez por todas. A ambigüidade surge com a pergunta: quando obtemos o perdão para todos os pecados que cometeremos? Essa pergunta significa: quando o perdão foi comprado e garantido para nós? Ou significa: quando o perdão será aplicado a cada transgressão, de modo que remova o desagrado de Deus para com ela? A resposta à primeira pergunta poderia ser: na morte de Cristo. A resposta à segunda pergunta: na renovação de nosso arrependimento.
Isso levanta outra pergunta: Deus sente desprazer em relação a seus filhos justificados? Se isto é verdade, que tipo de desprazer é este? É o mesmo que Deus sente em relação aos pecados dos incrédulos? Como Deus vê os nossos pecados diários? Ele os vê como transgressão de sua vontade, que O entristece e O deixa irado. Contudo, essa tristeza e essa ira, embora motivadas por responsabilidade e culpa autênticas, não é a “ira judicial”, utilizando a expressão de Thomas Watson. “Embora o filho de Deus, após receber o perdão, possa incorrer no desprazer de seu Pai celestial, a ira judicial de Deus é removida. Ainda que Deus possa usar a vara, Ele já removeu a maldição. As correções podem sobrevir aos santos, mas não a destruição” (Body of Divinity, p. 556).
Deus também vê nossos pecados como “cobertos”, e não como “imputados”, por causa do sangue de Cristo (Romanos 4.7-8). Assim, de um modo paradoxal, Ele vê nossos pecados como portadores de culpa (que causam tristeza e ira) e, ao mesmo tempo, como pecados que já têm o perdão garantido(embora ainda não perdoados, no sentido da reação de Deus à confissão e da remoção do seu desprazer paternal). O que causa a distinção entre a ira judicial de Deus para com os pecados ainda não confessados dos incrédulos e o desprazer dEle para com os pecados não perdoados dos crentes? A diferença é que o crente está unido a Deus, em Cristo, mediante uma nova aliança. A promessa desta aliança é que Deus jamais deixará de fazer-nos o bem e jamais permitirá que O abandonemos, mas sempre nos trará à confissão e ao arrependimento. “Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” (Jeremias 32.40).
Este compromisso da nova aliança foi comprado por Cristo para nós (Lucas 22.20) e aplicado por meio da fé, de modo que, embora incorramos no desprazer de Deus, nós, que somos justificados pela fé, nunca incorremos na ira judicial de dEle, por toda a eternidade. Em outras palavras, visto que o perdão de todos os nossos pecados foi comprado e garantido pela morte de Cristo, Deus está plenamente comprometido em trazer-nos de novo ao arrependimento e à confissão, tão freqüentemente quanto necessário, a fim que recebamos o perdão e o desfrutemos na remoção do seu desprazer paternal. Nosso Pai se compraz em restaurar-nos à sua satisfação, até que essas restaurações não sejam mais necessárias.
Fonte: Devocional extraído do livro Provai e Vede, de John Piper.

quarta-feira, setembro 17, 2014

A Marca da Besta e o Significado do 666

A Marca da Besta e o Significado do 666
Pr. Leandro Lima




Neste vídeo, Leandro Lima fala sobre o Significado da marca da besta e do número 666. Assista abaixo:





terça-feira, setembro 16, 2014

Deus Não Está Morto! O Homem Sem Cristo Está!

Deus Não Está Morto; O Homem Sem Cristo Está
Pr. Márcio William Chaveiro




Tenho visto que muitos crentes estão surpresos ou maravilhados com o filme: “Deus não está morto”! Sem dúvida é um bom filme, retrata bem a realidade vivida nas Universidades nos EUA e no mundo todo. Uma realidade triste de ateísmo declarado e agnosticismo, que representa 11% da população mundial. Tem algumas questões de impropriedade teológica no filme, mas tem mais acertos que erros ao meu ver, por isso não vou comentar sobre isso. 

É natural que homens, que estão mortos em delitos e pecados, escravos de si mesmos, do mundo e o Diabo, defendam que Deus não existe ou que está morto (Ef 2. 1-3)! O próprio professor de Filosofia do filme citado, em certo momento esclarece: Deus não está morto, porque para estar morto precisava ter vivido antes, mas como ele nunca existiu, é uma impropriedade dizer isso! Quem conhece a Escritura sabe que tais afirmações não devem nos surpreender, porque o tolo diz em seu coração que Deus não existe (Sl 14.1-2)! Seria um absurdo se a ciência descobrisse que Deus existe! O homem com seu brilhante cérebro, conseguiu encontrar Deus! Se fosse possível tal proeza, poderíamos declarar que Deus nunca existiu mesmo, pois o deus descoberto seria uma representação potencializada do próprio homem, como foi Zeus e os outros deuses do Olimpo! Por essa razão, Deus nunca quis provar para o homem que Ele existe, Ele não tem problema de auto afirmação, de orgulho ou vaidade como os ateus e outros tem encarnado na alma e no coração! Deus se evidencia a partir do que criou, como testemunho da sua existência, mas não para se submeter a julgamento humano ou provar sua existência, como se precisasse disso (Sl 19. 1-6; Rm 1.18-27)! Mas os brilhantes ateus acham que tudo que existe é obra do “acaso” ou do “multiuniverso”! Deus por ser Deus, se revela a quem Ele quer, quando quer, e não quando o homem quer e como quer (Jo 3.1-15; At 17.23-31)! Caso contrário, Deus não seria Deus, mas sim o homem! 


Concluo essa reflexão com a declaração de um ex ateu que foi alcançado pela graça e teve seu entendimento transformado pela ação sobrenatural de Deus, C. S. Lewis: “Eu descobri em mim mesmo desejos os quais nada nesta Terra pode satisfazer. A única explicação lógica é que eu fui feito para outro mundo.”


Fonte: Perfil do Autor no Facebook

segunda-feira, setembro 15, 2014

Principal Diferença Entre o Cristianismo e as Demais Religiões

Principal Diferença Entre o Cristianismo e as Demais Religiões
Paul Washer





Neste vídeo, Paul Washer fala sobre a principal diferença entre o cristianismo e as demais religiões. Assista abaixo:



quinta-feira, setembro 04, 2014

Exposição de Filipenses 2:12-13

Exposição de Filipenses 2:12-13
William Hendrilksen




“Assim, pois, meus amados, como sempre obedeceram, não só em minha presença, mas muito mais agora em minha ausência, continuem desenvolvendo sua própria salvação com temor e com tremor. Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer quanto o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2:12-13)

A obediência dos filipenses não deve ser motivada pela presença de Paulo, nem durar só enquanto ele estiver em seu meio. Ao contrário, sua própria ausência deve imprimir-lhes a idéia de que agora mais do que nunca devem tomar a iniciativa. Especialmente agora devem se esforçar, porque devem contar com seus próprios recursos; sem dúvida não no que diz respeito a Deus, mas no que diz respeito a Paulo. Agora eles devem desenvolver “sua própria salvação”, ou seja, devem desenvolvê-la à parte da assistência de Paulo. Sim, eles devem desenvolvê-la, isto é, levá-la à sua conclusão, digeri-la plenamente e aplicá-la ao viver diário. Devem envidar todo esforço para produzir todos os frutos do Espírito (a lista completa de Gl 5.22,23). Devem almejar nada menos que a perfeição moral e espiritual. Não nos equivocamos ao afirmar que, em tal contexto, o tempo do verbo indica que Paulo tinha em mente a idéia de um esforço contínuo, vigoroso, estrêmuo: “Continuem a desenvolver.” Os crentes não são salvos de um só golpe (por assim dizer). Sua salvação é um processo (Lc 13.23; At 2.47; 2Co 2.15). É um processo no sentido em que eles mesmos, longe de permanecerem passivos ou inativos, tomam parte ativa. É um prosseguir, um seguir após, um avançar com determinação, uma contenda, uma luta, uma corrida (ver Fp 3.12; também Rm 14.18; 1Co 9.24-27; 1Tm 6.12).

Não é fácil manter um esforço tão constante e vigoroso. É uma batalha que se processa em três frentes, uma guerra contra a combinação tremendamente poderosa e astuta do mundo, do demônio e da carne. Significa fazer pleno uso de todo meio divinamente ordenado para vencer o mal e trazer à luz o bem que há neles (“neles”, porque Deus os colocou ali!).

Uma coisa é dizer: “Façam tudo para a glória de Deus”; e outra bem diferente é pôr isso em prática. Uma coisa é orar: “Assim como nós perdoamos nosso devedores”; outra muito mais difícil é perdoar realmente. Uma coisa é ostentar um cartaz bem escrito e belo: outra coisa é reconhecê-lo de fato como Cabeça, submetendo-lhe, em oração, todos os assuntos importantes e obedecendo a cada um de seus mandamentos. 

Uma coisa é asseverar piedosamente: “A soberania de Deus é o princípio fundamental da fé e prática”; muitíssimo difícil é submeter-se, confiadamente, a essa vontade soberana, quando um ente querido, paulatinamente, se definha e, finalmente, vem a falecer. E assim poderíamos continuar indefinidamente. De fato, a tarefa que aqui está posta sobre os ombros dos filipenses é tão difícil que, deixados ao sabor de seus próprios recursos, não poderão realizar como não o poderia o inválido descrito em João 5: levantar-se e andar. A este, todavia, Jesus manda: “Levante, tome seu leito e ande.” E, em substância, ele diz aos filipenses que considerem o desenvolvimento de sua própria salvação a tarefa de sua vida. Note bem: sua salvação, aqui, enfatiza aquele aspecto da salvação a que chamamos santificação.

Por ser esta tarefa algo tão vital, ela deve ser efetuada “com temor e tremor”. A importância desta frase faz que preceda o verbo que a modifica. Lemos: “Com temor e tremor, continuem a desenvolver sua própria salvação.”

“Com temor e tremor” (cf. 1Co 2.3; 2Co 7.15; Ef 6.5). Significado: NÃO no espírito de: indiferença, mente dividida (1Rs 18.21) desrespeito e desdém (At 17.18) confiança em si próprio (Mt 26.33) justiça própria (Lc 18.11) MAS, no espírito de: sinceridade, unidade de propósito (Sl 119.10,34) reverência e respeito, temor de ofender a Deus de qualquer maneira (Gn 39.9; Hb 12.28) confiança em Deus (2Cr 20.12) humildade (Lc 18.13)

(2) O Incentivo para Atenção

13. Tal temor e tremor não quer dizer desespero. É justamente o oposto disso. Paulo diz,  alentadoramente: “Vocês, filipenses, devem continuar a operar sua própria salvação, e vocês podem fazer isso, porque é Deus quem está operando em vocês.” Se não fosse o fato de Deus estar operando em vocês, filipenses, jamais estariam a desenvolver sua própria salvação. Ilustremos:

A torradeira não pode produzir pão torrado a menos que esteja “ligada” para que seus fios de nicromo estejam aquecidos pela corrente que os liga à central elétrica. O ferro elétrico é inútil a menos que seu plugue esteja acoplado à tomada. À noite não haverá luz na sala a menos que a eletricidade flua pelos fios de tungstênio para dentro da lâmpada, cada filamento mantendo contato com os cabos que vêm da fonte de energia. As rosas do jardim não podem alegrar o coração humano com sua beleza e fragrância a menos que extraiam sua virtude dos raios solares. Melhor ainda: “Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira; assim, nem vocês o podem dar, se não permanecerem em mim” (Jo 15.4).

Assim também aqui. Os filipenses só poderão operar sua própria salvação permanecendo num vivo e ativo contato com seu Deus. E é exatamente porque Deus começou boa obra neles – não são eles os “amados”? –, e porque Deus começou essa boa obra, também a levará à perfeição (Fp 1.6), os filipenses, como “cooperadores de Deus” (cf. 1Co 3.9), poderão levar essa salvação a sua conclusão. Não só o princípio, mas cada ponto do processo salvífico é de Deus (Jo 1.12; 15.5b; 1Co 15.10; Ef 2.8,10; Fp 1.6,28,29; 3.19,9,12; especialmente 4.13). Somos “feitura”, sua criação, seu “poema”. Ele nos fez o que somos. Por meio de seu Espírito operando nos corações de seu povo (Fp 1.19), aplicando-lhes os meios de graça e todas as experiências de vida, Deus é o Operador, grande, constante e efetivo, o Energizador, operando na vida dos filipenses, realizando neles tanto o querer quanto o realizar. Note bem: não só o executar, mas também o querer, isto é, o decidir e o desejar:

“Não foi porque eu te escolhi,
Porque, Senhor, isso seria impossível.
Este coração ainda te rejeitaria,
Caso não me tivesses escolhido.
Do pecado que me manchava
Me limpaste e me livraste;
Desde a eternidade me ordenaste
A fim de que para ti eu pudesse viver.”
(Josiah Conder)

O paralítico, cuja história se acha impressa em João 5, era incapaz de andar. Todavia, mediante a palavra de Jesus, ele se põe em pé, toma seu leito e começa a andar. O que não pode fazer pela própria força, ele pode, deve e faz, e isto na força do Senhor.

Quanto ao querer e ao realizar, os fatos são exatamente como se acham declarados em Os Cânones de Dort III e IV, artigos 11 e 12: “Ele infunde novas qualidades na vontade, e faz que essa vontade, outrora morta, reviva; sendo má, desobediente e rebelde, ele a faz boa, obediente e maleável; ele move e fortalece de tal maneira essa vontade que, qual boa árvore, passa a produzir frutos de boas ações ... A vontade, assim renovada, não só é movida e influenciada por Deus, mas, em decorrência dessa influência, se torna ativa." 

A maneira como Deus opera no coração de seu filho, habilitando o a querer e realizar, em lugar algum é mais belamente descrito do que em Efésios 3.14-19. O acréscimo que o apóstolo faz é muito confortador: segundo seu beneplácito. É por causa de e com vista à execução de seu beneplácito que Deus, como fonte infinita de energia espiritual e moral, faz que os crentes operem sua própria salvação. “Fá-los” – ainda que sem anular, de modo algum, sua própria responsabilidade e atividade. Note, além disso, o termo beneplácito. O Dr. H. Bavinck (em The Doctrine of God, tradução inglesa, p. 370) diz: “A graça e a salvação são os objetos do deleite divino; Deus, porém, não tem prazer no pecado nem se compraz na punição.” Esta declaração está em harmonia com a Escritura (Lm 3.33; Ez 18.23; 33.11; Os 11.8; Ef 1.5,7,9).

Fonte: Comentário Bíblicos de Filipenses - William Hendriksen - págs. 492-496

quarta-feira, setembro 03, 2014

O Fruto do Espírito

O Fruto do Espírito
William Hendriksen 



Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra tais coisas não existe lei(Gálatas 5:22,23) 

Talvez possamos dividir estes noves preciosos dons em três grupos, perfazendo três frutos e cada grupo. Se este for o correto — de forma alguma tem-se certeza! , o primeiro grupo estaria referindo-se às qualidades espirituais mais básicas: amor, alegria, paz. O segundo grupo indicaria aquelas virtudes que se manifestam nas relações sociais. Pressupomos que considera os crentes em seus diversos contatos uns com os outros e com aqueles que não pertencem à comunidade cristã: longanimidade, benignidade, bondade. No último grupo, se bem que aqui há bastante espaço para divergência de opinião, o primeiro fruto poderia referir-se à relação dos crentes com Deus e sua vontade revelada na Bíblia: fidelidade ou lealdade. O segundo, presume-se, teria a ver com seu contato com os homens: mansidão. O último, à relação que cada crente tem consigo mesmo, ou seja, com seus próprios desejos e paixões: domínio próprio.

Encabeçando o primeiro grupo temos “o maior dos três maiores”, ou seja, o amor (1 Coríntios 13; Efésios 5:2; Colossenses 3:14). Para esta virtude, ver 5:6 e 5:13, acima. Não somente Paulo, mas também João estabelece prioridade a esta graça de abnegação (1 João 3:14; 4:8,19). E igualmente Pedro (1 Pedro 4:8). E assim eles estão seguindo o claro exemplo que lhes deu Cristo (João 13:1,34; 17:26). Apesar de que, assim como estas passagens o revelam, dificilmente seria legítimo limitar estritamente esta virtude tão básica ao “amor pelos irmãos”, todavia, por outro lado, no presente contexto (que fala de contendas, disputas e ciúmes, etc., ver também v.14) a referência pode muito bem ser especialmente a este afeto mútuo. Quando o amor se faz presente, a alegria não pode estar muito longe. Não nos disse o autor que o amor é o cumprimento da lei, e que fazer o que a lei de Deus manda traz deleite? (Salmos 119:16,24,35,47,70,174). Além disso, a verdade desta afirmação torna-se ainda mais clara quando se tem em mente que a capacidade para observar esta ordenança divina é um dom de Deus, sendo um elemento daquela maravilhosa salvação que em seu grande amor concedeu gratuitamente a seus filhos. Além disso, já que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Romanos 8:28), faz-se evidente que os crentes podem alegrar-se mesmo diante de circunstâncias as mais dolorosas, assim como Paulo mesmo comprovou muitas vezes (Atos 27:35; 2 Coríntios 6:10 “entristecidos, mas sempre alegres”; 12:9; Filipenses 1:12,12; 4:11; 2 Timóteo 4:6-8). Além do mais, sua alegria não é a deste mundo, que é uma diversão superficial e que fracassa em satisfazer as necessidades mais profundas da alma, mas a de Deus é uma “alegria indizível cheia de glória” (1 Pedro 1:8), e um antecipação da alegria radiante que está reservada para os seguidores de Cristo. A paz também é um resultado natural do exercício do amor, pois “grande paz têm os que amam a tua lei” (Salmos 119:165; cf. 29:11 ; 37:11; 85:8). Esta paz é a serenidade de coração, a porção de todos quantos, tendo sido justificados mediante a fé (Romanos 5:1), aspiram ser instrumentos nas mãos de Deus para fazerem que outros também possam compartilhar desta tranqüilidade. Portanto, o possuidor da paz torna-se também um promotor da paz (Mateus 5:9). Portanto, aquele que está realmente consciente desta grandiosa dádiva da paz, a qual recebeu de Deus como resultado da amarga morte de Cristo na cruz, envidará todo esforço para “preservar  dentro da comunidade cristã  a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Efésios 4:3).

A menção da paz é, por assim dizer, um liame natural entre o primeiro e o segundo grupo, porquanto esta virtude é com freqüência contrastada com as contendas entre os homens, e porque este segundo grupo descreve aquelas virtudes que os crentes revelam em seus contatos entre si e com os demais homens. O primeiro dos frutos do Espírito mencionados neste segundo grupo é a longanimidade. Ela caracteriza a pessoa que, em relação àqueles que a aborrecem, se lhe opõem ou a molestam, exerce a paciência. Ela se recusa a entregar-se à paixão ou às explosões de ira. A longanimidade ou paciência não é apenas um atributo humano, mas também divino, visto que o mesmo é atribuído a Deus (Romanos 2:4; 9:22) e a Cristo (1 Timóteo 1:16), bem como ao homem (2 Coríntios 6:6; Efésios 4:2; Colossenses 3:12,13; 2 Timóteo 4:2). Como atributo humano, é inspirado pela confiança de que Deus cumprirá suas promessas (2 Timóteo 4:2,8; Hebreus 6:12). Os gálatas necessitavam muitíssimo de que se pusesse ênfase nesta virtude, já que eles, como já vimos, provavelmente estavam se dividindo pelas contendas e por um espírito partidário. Por outro lado, a longanimidade é uma grande arma contra a hostilidade do mundo em sua atitude para com a igreja. De mãos dadas com essa virtude está a benignidade. Esta é suave e terna. Os primeiros cristãos se recomendavam por meio dela (2 Coríntios 6:6). Este fruto, tal como exercido pelos crentes, nada mais é do que um pálido reflexo da benignidade primordial manifestada por Deus (Romanos 2:4; cf. 11:22). Além disso, somos admoestados a tornar-nos como Ele neste aspecto (Mateus 5:43-48; Lucas 6:27-38). Os Evangelhos contêm numerosas ilustrações da benignidade que Cristo demonstrou para com os pecadores. Para mencionar apenas algumas, ver Marcos 10:13-16; Lucas 7:11-17, 36-50; 8:40-56; 13:10-117; 18:15-17; 23:34; João 8:1-11; 19:25-27. A virtude que completa este grupo é a bondade, que é a excelência moral e espiritual, em todos os aspectos, criada pelo Espírito. No presente contexto, visto que é mencionada depois da benignidade, se refere especialmente à generosidade de coração e de ações.

Finalmente, o apóstolo menciona as três graças que concluem todo o sumário. Primeiro está a fidelidade. O termo como usado no original com freqüência se traduz corretamente pela palavra . Todavia, uma vez que aqui aparece depois de “benignidade” e “bondade”, parece ser mais correto traduzir-se por “fidelidade”. O seu significado é lealdade, fidelidade. Uma vez que nesta mesma carta Paulo se queixa da falta de fidelidade para com ele, o que foi demonstrado através da conduta de muitos dos gálatas (4:16), percebemos que a menção desta virtude, aqui, é algo bastante apropriado. Contudo, em última análise não era tanto para com o próprio Paulo que havia falta de lealdade, e, sim, para com o evangelho  e, assim, para com Deus e sua Palavra , e tinha estado faltando em proporção elevada, como fica evidenciado por 1:6-9; 3:1; 5:7. Conseqüentemente, com toda probabilidade o que Paulo está recomendando aqui, como um fruto do Espírito, é a fidelidade a Deus e à sua vontade. Contudo, isto não exclui, antes inclui, a lealdade para com os homens. Parece-nos apropriado interpretar aqui o próximo item, ou seja, a mansidão, como sendo a gentileza uns para com os outros e para com todos os homens, principalmente se levarmos em consideração o contexto precedente, o qual fala das dissensões em suas várias manifestações (ver vv. 20 e 21). Cf. 1 Coríntios 4:21. Esta virtude também nos faz lembrar de Cristo (Mateus 11:29; e 2 Coríntios 10:1). A mansidão é o oposto extremo da veemência, da violência e da agressividade ou explosões de ira. A última virtude que Paulo menciona, e por implicação recomenda, é o domínio próprio, que é uma relação que alguém mantém consigo mesmo. A pessoa que tem a bênção de possuir esta qualidade, possui “o poder de conter-se a si mesma”, que é o sentido do termo usado no original. O fato de terem sido mencionadas previamente, entre os vícios enumerados (v. 19), a imoralidade, a impureza e a indecência, revela que era apropriado mencionar o domínio próprio como a virtude oposta. Fica claro que aqui temos referência a muito mais coisas que simplesmente a sexo. Aqueles que realmente exercem esta virtude levam todo o pensamento à submissão e obediência a Cristo (2 Coríntios 10:5).

E prossegue: contra tais coisas não existe lei. Uma vez que Paulo aqui completou uma lista de virtudes, que são coisas, não pessoas, é natural interpretar suas palavras como significando: “contra tais coisas  tais virtudes  não existe lei”. A gramática não proíbe tal construção. Também é óbvio que, à semelhança dos vícios enumerados, esta lista de virtude é apenas representativa. Não podemos mesmo afirmar que todas as excelências cristãs estão incluídas na lista. Portanto, Paulo diz: “contra tais... Ao dizer que contra tais coisas não existe lei, ele está encorajando a cada crente a manifestar estas qualidades, a fim de que, assim procedendo, os vícios possam ser aniquilados”.

O incentivo de que precisamos para exibir estes excelentes traços do caráter foi fornecido por Cristo, pois é devido à gratidão que os crentes sentem para com Cristo que os usam para adornar sua conduta. O exemplo, também, em conexão com todos eles, foi dado por ele. E as próprias virtudes, associadas ao poder para exercê-las, são doadas pelo seu Espírito.

Embora Paulo tenha qualificado as virtudes enumeradas de “o fruto do Espírito”, agora ele desvia a ênfase do Espírito para Cristo. Se ele pôde fazer isso tão prontamente, é devido ao fato de que quando o Espírito ocupa o coração, Cristo também o faz (Efésios 3:16,17). Cristo e o Espírito não podem ser separados entre si. Cristo mesmo habita a vida interior dos crentes “no Espírito” (Romanos 8:9,10). O Espírito não foi dado por Cristo? (João 15:26; 2 Coríntios 3:17). A razão para esta mudança de ênfase é que o apóstolo lembrará os gálatas de que eles crucificaram a carne. Isso, naturalmente, chama a atenção imediatamente para Cristo e sua cruz. E assim Paulo prossegue [...]

Fonte: Extraído do excelente comentário de Gálatas de William Hendriksen, publicado pela Editora Cultura Cristã, páginas 321-325.

Fonte: Monergismo

O Maldito "Evangelho" da Prosperidade

O Maldito "Evangelho" da Prosperidade
John Piper



Piper fala, neste curto vídeo, sobre este "evangelho" que tem substituído Cristo por riquezas.


segunda-feira, setembro 01, 2014

O Milênio na Visão Amilenista

O Milênio na Visão Amilenista
Anthony A. Hoekema




O livro do Apocalipse menciona certos indivíduos dos quais diz que viverão e reinarão com Cristo por mil anos (cap.24.4). interpretações divergentes desta passagem levaram à formação de pelo menos quatro posições principais acerca da natureza do milênio ou do Reino milenar descrito aqui. Estas quatro posições são: amilenismo, pós-milenismo, premilenismo histórico e premilenismo dispensacionalista. Neste capítulo, apresentaremos uma breve descrição e análise dessas quatro principais posições acerca do milênio.

Comecemos com o amilenismo. O termo amilenismo não é muito feliz. Ele sugere que os amilenistas ou não crêem em nenhum milênio ou, simplesmente, ignoram os primeiros seis versos de Apocalipse 20, que falam de um reinado milenar. Nenhuma destas duas declarações é correta. Embora seja verdadeiro que os amilenistas não crêem em um reinado terreno literal de mil anos, que se seguiria à volta de Cristo, o termo amilenismo não é uma descrição acurada de sua posição. Jay E. Adams, em seu livro The Time is at Hand (O Tempo Está Próximo), sugeriu que o termo amilenismo seja substituído pela expressão milenismo realizado. Este último termo, sem dúvida, descreve mais acuradamente a posição “amilenista” do que o termo usual, uma vez que os “amilenistas” crêem que o milênio de Apocalipse 20 não é exclusivamente futuro, mas está agora em processo de realização. Entretanto, a expressão milenismo realizado é um tanto desajeitada, substituindo um simples prefixo por uma palavra de cinco sílabas. Portanto, apesar das desvantagens e limitações da palavra, eu continuarei a usar o termo mais breve e mais comum, amilenismo.

Os amilenistas interpretam o milênio mencionado em Apocalipse 20.4-6 como descrevendo o reinado presente das almas dos crentes mortos e com Cristo no céu. Eles entendem o aprisionamento de Satanás, mencionado nos primeiros três versos deste capítulo, como estando efetivado durante todo o período entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo, embora findando pouco antes da volta de Cristo. Eles ensinam que Cristo voltará após este reinado milenar celestial.

Os amilenistas também sustentam que o Reino de Deus está presente agora no mundo, pois o Cristo vitorioso está governando seu povo através de sua Palavra e seu Espírito, embora eles também aguardem um Reino futuro, glorioso e perfeito na nova terra na vida por vir. Apesar do fato de Cristo ter conquistado a vitória decisiva sobre o pecado e o mal, o Reino do mal continuará a existir lado a lado com o Reino de Deus até o fim do mundo. Embora já estejamos desfrutando de várias bênçãos escatológicas, no tempo presente (Escatologia inaugurada), nós aguardamos uma série culminante de eventos futuros associados com a Segunda Vinda de Cristo, que instaurará o estado final (Escatologia futura). Os assim chamados “sinais dos tempos” têm estado presentes no mundo desde o tempo da primeira vinda de Cristo, mas eles atingirão uma manifestação mais intensa e final imediatamente antes de sua Segunda Vinda. O amilenista, portanto, espera que, antes da volta de Cristo, sejam completadas a pregação do Evangelho a todas as nações e a conversão da plenitude de Israel. Ele igualmente aguarda uma forma intensificada de tribulação e da apostasia, bem como a manifestação de um anticristo pessoal, antes da Segunda Vinda.

O amilenista compreende a Segunda Vinda de Cristo como um evento único, não um evento que envolva duas partes. Na hora da volta de Cristo haverá uma ressurreição geral, tanto de crentes como de incrédulos. Após a ressurreição, os crentes que ainda estiverem vivos serão transformados e glorificados. Estes dois grupos, crentes ressurrectos e crentes transformados, são então elevados para as nuvens para encontrar com o Senhor nos ares. Após este “arrebatamento” de todos os crentes, Cristo completará sua descida à terra e conduzirá o juízo final. Após o juízo, os incrédulos serão entregues à punição eterna, ao passo que os crentes desfrutarão para sempre das bênçãos dos novos céus e da nova terra.

Fonte: A Bíblia e o Futuro - Anthony A. Hoekema - págs. 187-188.

sexta-feira, agosto 29, 2014

Os Atributos Morais de Deus

Os Atributos Morais de Deus
Louis Berkhof



Os atributos morais de Deus são geralmente considerados como as perfeições divinas mais gloriosas. Não que um atributo de Deus seja em si mesmo mais perfeito e mais glorioso que outro, mas, relativamente ao homem, as perfeições morais de Deus refulgem com um esplendor todo seu. Geralmente são discutidos sob três títulos: (1) a bondade de Deus; (2) a santidade de Deus; e (3) a justiça de Deus.

1. A BONDADE DE DEUS. Esta geralmente é tratada como uma concepção genérica, incluindo diversas variedades que se distinguem de acordo com os seus objetos. Não se deve confundir a bondade de Deus com Sua benevolência, que é um conceito mais restrito. Falamos que uma coisa é boa quando ela corresponde em todas as suas partes ao ideal. Daí, em nossa atribuição de bondade de Deus, a idéia fundamental é que Ele é, em todos os aspectos e por todos os modos, tudo aquilo que deve ser como Deus, e, portanto, corresponde perfeitamente ao ideal expresso pela palavra “Deus”. Ele é bom na acepção metafísica da palavra, é perfeição absoluta e felicidade perfeita em Si mesmo. É neste sentido que Jesus disse ao homem de posição: “Ninguém é bom senão um só, que é Deus”, Mc 10.18; Lc 18.18, 19. Mas, desde que Deus é bom em Si mesmo, é também bom para as Suas criaturas e, portanto, pode ser chamado a fons omnium bonorum. Ele é a fonte de todo bem, e assim é apresentado de várias maneiras na Bíblia toda. O poeta canta: “Pois em ti está o manancial da vida; na tua luz vemos a luz”, Sl 36.9. Todas as boas coisas que as criaturas fruem no presente e esperam no futuro, fluem para elas deste manancial inexaurível. E não somente isso, mas Deus é também o summum bonum, o sumo bem, para todas as Suas criaturas, embora em diferentes graus e na medida em que correspondem ao propósito da sua existência. Na presente conexão, naturalmente damos ênfase à bondade ética de Deus e a seus diferentes aspectos, como determinados pela natureza dos seus objetos.

a. A bondade de Deus para com Suas criaturas em geral. Esta pode ser definida como a perfeição de Deus que O leva a tratar benévola e generosamente todas as Suas criaturas. É a afeição que o Criador sente para com as Suas criaturas dotadas de sensibilidade consciente como tais. O salmista a exalta com as bem conhecidas palavras: “O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras... Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. Abres a tua mão e satisfazes de benevolência a todo vivente”, Sl 145.9, 15, 16. Este benévolo interesse de Deus é revelado em Seu cuidado pelo bem-estar da criatura e corresponde à natureza e às circunstâncias da criatura. Varia naturalmente em grau, de acordo com a capacidade que os seus objetos têm de recebe-lo. E embora não se restrinja aos crentes, somente estes manifestam apropriada apreciação das bênçãos que dela provêm, desejo de usa-las no serviço do seu Deus e, assim, desfrutam-na em medida mais rica e mais completa. A Bíblia refere-se a esta bondade de Deus em muitas passagens, como Sl 36.6; 104.21; Mt 5.45; 6.26; Lc 6.35; At 14.17.
b. O amor de Deus. Quando a bondade de Deus é exercida para com as Suas criaturas racionais, assume o caráter mais elevado de amor, e ainda se pode distinguir este amor de acordo com os objetos aos quais se limita. Em distinção da bondade de Deus em geral, o Seu amor pode ser definido como a perfeição de Deus pela qual Ele é movido eternamente à Sua própria comunicação. Desde que Deus é absolutamente bom em Si mesmo, Seu amor não pode achar completa satisfação em nenhum objeto falto de perfeição absoluta. Ele ama as Suas criaturas racionais por amor a Si mesmo, ou, para expressá-lo doutra forma, neles Ele se ama a Si mesmo, Suas virtudes, Sua obra e Seus dons. Ele nem mesmo retira completamente o Seu amor do pecador em seu estado pecaminoso atual, apesar de que o pecado deste é uma abominação para Ele, visto que, mesmo no pecador, Ele reconhece um portador da Sua imagem. Jo 3.16; Mt 5.44, 45. Ao mesmo tempo, Ele ama os crentes com amor especial, dado que os vê como Seus filhos espirituais em Cristo. É a estes que Ele se comunica no sentido mais rico e mais completo, com toda a plenitude da Sua graça e misericórdia. Jo 16.27; Rm 5.8; 1 Jo 3.1.
c. A graça de Deus. A significativa palavra “graça” é uma tradução do termo hebraico chanan e do grego charis. Segundo a Escritura, é manifestada não só por Deus, mas também pelos homens, caso em que denota o favor de um homem a outro, Gn 33.8, 10, 18; 39.4; 47.25; Rt 2.2; 1 Sm 1.18; 16.22. Nestes casos não implica necessariamente que o favor é imerecido. Em geral se pode dizer, porém, que a graça é a concessão de bondade a alguém que não tem nenhum direito a ela. É este particularmente o caso em que a graça a que se faz referência é a graça de Deus. Seu amor ao ser humano é sempre imerecido e, quando mostrado a pecadores, estes são até privados dele. A Bíblia geralmente emprega apalavra para indicar a imerecida bondade ou amor de Deus aos que perderam o direito a ela e, por natureza, estão sob a sentença de condenação. A graça de Deus é a fonte de todas as bênçãos espirituais concedidas aos pecadores. Como tal, lemos a seu respeito em Ef 1. 6.7; 2.7-9; Tt 2.11; 3.4-7. Embora a Bíblia fale muitas vezes da graça de Deus como graça salvadora, também faz menção dela num sentido mais amplo, como em Is 26.10; Jr 16.13. A graça de Deus é da maior significação prática para os pecadores. É pela graça que o caminho da redenção foi aberto para eles, Rm 3.24; 2 Co 8.9, e que a mensagem da redenção foi levada ao mundo, At 14.3. pela graça os pecadores recebem o dom de Deus em Jesus Cristo, At 18.27; Ef 2.8. Pela graça eles são justificados, Rm 3.24; 4.16; Tt 3.7, são enriquecidos de bênçãos espirituais, Jo 1,16; 2 Co 8.9; 2 Ts 2.16, e finalmente herdam a salvação, Ef 2.8; Tt 2.11. Vendo-se absolutamente sem méritos próprios ficam na total dependência da graça de Deus em Cristo. No modernismo teológico, com sua crença na bondade inerente do homem e em sua capacidade de bastar-se a si próprio, a doutrina da salvação pela graça tornou-se praticamente um “acorde perdido”, e mesmo a palavra “graça” foi esvaziada de toda significação espiritual e desapareceu dos discursos religiosos. Só foi conservada no sentido de “graciosidade”, coisa inteiramente externa. Felizmente há algumas evidências de uma renovada ênfase ao pecado, e de uma recém-despertada consciência da necessidade da graça divina.
d. A misericórdia de Deus. Outro importante aspecto da bondade e amor de Deus é a Sua misericórdia ou terna compaixão. A palavra hebraica mais geralmente empregada para esta perfeição é chesed. Há outra palavra, porém, que expressa uma terna e profunda compaixão, a saber, a palavra racham, às vezes lindamente traduzida por “terna misericórdia”. A Septuaginta e o Novo Testamento empregam a palavra grega eleos para designar a misericórdia de Deus. Se a graça de Deus vê o homem como culpado diante de Deus e, portanto, necessitado de perdão, a misericórdia de Deus o vê como um ser que está suportando as conseqüências do pecado, que se acha em lastimável condição, e que, portanto, necessita do socorro divino. Pode-se definir a misericórdia divina como a bondade ou amor de Deus demonstrado para com os que se acham na miséria ou na desgraça, independentemente dos seus méritos. Em Sua misericórdia Deus se revela um Deus compassivo, que tem pena dos que se acham na miséria e está sempre pronto a aliviar a sua desgraça. Esta misericórdia é generosa, Dt 5.10; Sl 57.10; 86.5, e os poetas de Israel se dedicam em entoar canções descrevendo-a como duradoura e eterna, 1 Cr 16.34; 2 Cr 7.6; Sl 136; Ed 3.11. No Novo Testamento é muitas vezes mencionada ao lado da graça de Deus, especialmente nas saudações, 1 Tm 1.2; 2 Tm 1.1; Tt 1.4. Repetidamente se nos diz que essa perfeição divina é demonstrada para com os que temem a Deus, ex 20.2; Dt 7.9; Sl 86.5; Lc 1.50. Não significa, porém, que se limita a eles, conquanto a desfrutem em medida especial. As ternas misericórdias de Deus estão sobre todas as Suas obras, Sl 145.9, e até os que não O temem compartilham delas, Ez 18.23, 32; 33.11; Lc 6.35, 36. Não se pode apresentar a misericórdia de Deus como oposta à Sua justiça. Ela é exercida somente em harmonia com a mais estrita justiça de Deus, em vista dos méritos de Jesus Cristo. Outros termos empregados para expressar a misericórdia de Deus são “piedade”, “compaixão”, “benignidade”.
e. A longanimidade de Deus. A longanimidade de Deus é ainda outro aspecto da Sua grande bondade ou amor. O hebraico emprega a expressão ‘erek ‘aph, que significa literalmente “grande de rosto” e daí também “lento para a ira”, enquanto que o grego expressa a mesma idéia com a palavra makrothymia. É o aspecto da bondade ou amor de Deus em virtude do qual Ele tolera os rebeldes e maus, a despeito da sua prolongada desobediência. No exercício deste atributo o pecador é visto como permanecendo em pecado, não obstante as admoestações e advertências que lhe vêm. Revela-se no adiantamento do merecido julgamento. A Escritura fala da longanimidade de Deus em Êx 34.6; Sl 86.15; Rm 2.4; 1 Pe 3.20; 2 Pe 3.15. Um termo sinônimo, com uma conotação ligeiramente diversa, é a palavra “paciência”.

2. A SANTIDADE DE DEUS. A palavra hebraica para “ser santo”, qadash, deriva da raiz qad, que significa cortar ou separar. É uma das palavras religiosas mais proeminentes do Velho Testamento, e é aplicada primariamente a Deus. A mesma idéia é comunicada pelas palavras hagiazo e hagios, no Novo Testamento. Disto já se vê que não é correto pensar na santidade primariamente como uma qualidade moral ou religiosa, como geralmente se faz. Sua idéia fundamental é a de uma posição ou relaçãoexistente entre Deus e uma pessoa ou coisa.
a. Sua natureza. A idéia escriturística da santidade de Deus é dupla. Em sentido original denota que Ele é absolutamente distinto de todas as Suas criaturas, e é exaltado acima delas em majestade infinita. Assim entendida, a santidade de Deus é um dos Seus atributos transcendentais e às vezes é mencionada como a Sua perfeição central e suprema. Não parece próprio falar de um atributo de Deus como sendo mais central e mais fundamental que outro; mas, se fosse permissível isto, a ênfase da Escritura à santidade de Deus pareceria justificar a sua escolha. Contudo, é evidente que, neste sentido da palavra, a santidade não é realmente um atributo moral, que possa ser coordenado com outros, como o amor, a graça e a misericórdia, mas é antes uma coisa de amplitude igual à de todos os predicados de Deus e a eles aplicável. Ele é santo em tudo aquilo que O revela, em Sua graça e bondade como também em Sua ira e justiça. Pode-se-lhe chamar “majestade-santidade” de Deus e passagens como ex 15.11; 1 Sm 2.2; Is 57.15 e Os 11.9 se referem a ela. É a santidade de Deus que Otto, em sua importante obra sobre o Santo (Das Heilige), considera como aquilo que é mais essencial em Deus, e que ele designa como “o numinoso”. Ele a considera como parte do não-racional em Deus, em que não se pode pensar conceptualmente, e que inclui idéias como “inacessibilidade absoluta” e “domínio absoluto” ou “majestade temível”. Desperta no homem um sentimento de nulidade absoluta, uma “consciência” ou “sentimento de condição de criatura” que leva a um auto-rebaixamento absoluto.

Mas a santidade de Deus tem também um aspecto especificamente ético na Escritura, e é neste seu aspecto que estamos mais interessados nesta conexão. A idéia ética da santidade divina não pode ser dissociada da idéia da majestade-santidade de Deus. Aquela desenvolve-se a partir desta. A idéia fundamental da santidade ética de Deus também é a de separação, mas, neste caso, a separação é do mal moral, isto é, do pecado. Em virtude da sua santidade, Deus não pode ter comunhão com o pecado, Jô 34.10; Hc 1.13. Empregada neste sentido, a palavra “santidade” indica a pureza majestosa de Deus, ou a Sua majestade ética. Mas a idéia de santidade não é meramente negativa (separação do pecado); tem igualmente um conteúdo positivo, a saber, o de excelência moral, ou perfeição ética. Se o homem reage à santidade majestosa de Deus com um sentimento de completa insignificância e temor, sua reação à santidade ética revela-se num senso de impureza, numa consciência de pecado, Is 6.5. Otto reconhece também este elemento na santidade de Deus, embora acentue o outro, e a respeito da resposta ele diz: “O simples temor, a simples necessidade de refúgio face ao ‘tremendum’, elevou-se aqui ao sentimento de que o homem, em sua condição de ‘profano’, não é digno de ficar na presença do Santo, e de que a sua inteira indignidade pessoal poderia contaminar até mesmo a própria santidade”. Esta santidade ética de Deus pode ser definida como a perfeição de Deus, em virtude da qual Ele eternamente quer manter e mantém a Sua excelência moral, aborrece o pecado, e exige pureza moral em Suas criaturas.
b. Sua manifestação. A santidade de Deus é revelada na lei moral implantada no coração do homem e que fala por meio da consciência e, mais particularmente, na revelação especial de Deus. Expressa-se proeminentemente na lei dada a Israel. Essa lei, em todos os seus aspectos, foi planejada para imprimir em Israel a idéia da santidade de Deus, e para leva-lo a sentir fortemente a necessidade de levar vida santa. A este propósito atendem símbolos e tipos como a nação, a terra santa, a cidade santa, o lugar santo e o sacerdócio santo. Além disso, foi revelada na maneira como Deus recompensava a observância da lei e visitava os transgressores com terríveis punições. A suprema revelação da santidade de Deus foi dada em Jesus Cristo, que é chamado “o Santo e o Justo”, At 3.14. Ele refletiu em Sua vida a perfeita santidade de Deus. Finalmente, a santidade de Deus é também revelada na Igreja como o corpo de Cristo. É um fato notável, para o qual muitas vezes se chama a atenção, que se atribui santidade a Deus com muito maior freqüência no Velho Testamento que no Novo, conquanto isto seja feito ocasionalmente no Novo Testamento, Jo 17.11; 1 Pe 1.16; Ap 4.8; 6.10. Isto se deve provavelmente ao fato de que o Novo Testamento destina mais particularmente o termo para qualificar a terceira Pessoa da Trindade Santa como Aquele cuja tarefa especial, na economia da redenção, consiste em comunicar santidade ao Seu povo.

3. A JUSTIÇA DE DEUS. Este atributo relaciona-se estreitamente com o da santidade de Deus. Shedd fala da justiça de Deus como “um modo de Sua santidade”, e Strong lhe chama simplesmente “santidade transitiva”. Contudo, estes termos só se aplicam à geralmente denominada justiça relativa de Deus, em distinção de Sua justiça absoluta.
a. A idéia fundamental de justiça. A idéia fundamental de justiça é a de estrito apego à lei. Entre os homens ela pressupõe que há uma lei à qual eles devem ajustar-se. Às vezes se diz que não podemos falar de justiça em Deus, porque não há lei à qual Ele esteja sujeito. Mas, embora não haja lei acima de Deus, certamente há uma lei na própria natureza de Deus, e esta constitui o mais elevado padrão possível, pelo qual todas as outras leis são julgadas. Geralmente se faz distinção entre a justiça absoluta de Deus e a relativa. Aquela é a retidão da natureza divina, em virtude da qual Deus é infinitamente reto em Si mesmo, enquanto que esta é a perfeição de Deus pela qual Ele se mantém contra toda violação da Sua santidade e mostra, em tudo e por tudo, que Ele é Santo. É a esta retidão que o termo “justiça” se aplica mais particularmente. A justiça se manifesta especialmente em dar a cada homem o que lhe é devido, em trata-lo de acordo com os seus merecimentos. A inerente retidão de Deus é naturalmente básica para a retidão que Ele revela no trato de Suas criaturas, mas é especialmente esta última, também denominada justiça de Deus, que requer especial consideração aqui. Os termos hebraicos para “justo” e “justiça” são tsaddik,tsedhek e tsedhakah, e os termos gregos correspondentes são dikaios e dikaiosyne, todos os quais contêm a idéia de conformidade a um padrão. Esta perfeição é repetidamente atribuída a Deus na Escritura, Ed 9.15; Ne 9.8; Sl 119.137; 145.17; Jr 12.1; Lm 1.18, Dn 9.14; Jo 17.25; 2 Tm 4.8; 1 Jo 2.29; 3.7; Ap 16.5.
b. Distinções aplicadas à justiça de Deus. Há em primeiro lugar uma justiça rectoral de Deus. Esta justiça, como está implícito no nome, é a retidão que Deus manifesta como o Governador que exerce domínio tanto sobre o bem como sobre o mal. Em virtude de Sua justiça rectoral, Deus instituiu um governo moral no mundo, e impôs ao homem uma lei justa, com promessas de recompensa ao obediente e ameaças de punição ao transgressor. No Velho Testamento Deus sobressai proeminentemente como o Legislador de Israel, Is 33.11, e do povo em geral, Tg 4.12, e Suas leis são justas, Dt 4.8. A Bíblia refere-se a esta obra rectoral de Deus também em Sl 99.4 e Rm 1.32.
Estreitamente relacionada com a justiça rectoral de Deus está a Sua justiça distributiva. Este termo habitualmente serve para designar a retidão de Deus na execução da lei, e se relaciona com a distribuição de recompensas e punições, Is 3.10, 11; Rm 2.6; 1 Pe 1.17. É de duas classes: (1) Justiça remunerativa, que se manifesta na distribuição de recompensas a homens e anjos, Dt 7.9, 12, 13; 2 Cr 6.16; Sl 58.11; Mq 7.20; Mt 25.21, 34; Rm 2.7; Hb 11.26. É realmente uma expressão do amor divino distribuindo a Sua generosidade, não com base em méritos propriamente ditos, pois a criatura não pode dar prova de nenhum mérito absoluto diante do Criador, mas segundo promessa e acordo, Lc 17.10; 1 Co 4.7. As recompensas de Deus são fruto da sua graça e decorrem de uma relação pactual estabelecida por ele. (2) Justiça retributiva, que se relaciona com a imposição de castigos. É uma expressão da ira divina. Enquanto que num mundo isento de pecado não haveria lugar para a sua aplicação, necessariamente tem proeminente lugar num mundo cheio de pecado. A Bíblia em geral dá mais ênfase à recompensa dos justos que à punição dos ímpios; mas mesmo esta é bastante proeminente, Rm 1.32; 12.19; 2 Ts 1.8, e muitas outras passagens. Deve-se notar que, ao passo que o homem não merece a recompensa que recebe, merece a punição que lhe é dada. A justiça divina está originária e necessariamente obrigada a punir o mal, não porém a recompensar o bem, Lc 17.10; 1 Co 4.7; Jo 41.11. Muitos negam a estrita justiça punitiva de Deus e alegam que Deus pune o pecador para reforma-lo, ou para dissuadir outros de pecar; mas estas posições não são sustentáveis. O propósito primordial da punição do pecado é a manutenção do direito e da justiça. É certo que ela pode, incidentalmente, servir para reformar o pecador e impedir que outros pequem, e, secundariamente, isso pode estar incluído em seus propósitos. 

Fonte: Louis Berkhof, Teologia Sistemática, Editora Cultura Cristã.

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